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O poder do corno

Alex Antunes fala sobre o grande momento do pernambucano Otto
Por Administrador - 07/07/10 13:14


 

Conexão Vivo, por Nagulha - Alex Antunes  - 07/07/2010 (publicado originalmente no blog Sobre as Pernas/ portal Nagulha)

Foto: Tiago Lima

 

Momentos muito agradáveis em Macapá, semana passada. Na varanda do Adriano, baixista e dono de um simpático estúdio caseiro de ensaio, com o pessoal da MiniBox Lunar, ouvindo o Miranda discotecar muitas dezenas de sons bacanas noite adentro. Na preparação estético-psíquica da produção do álbum do grupo, o Miranda funde sons de diferentes épocas e estilos num amálgama inspirador, levando a banda de olhos fechados a um passeio imaginário pelas possibilidades infinitas dos sons – particularmente aqueles que conseguem misturar a delicadeza das vozes femininas com uma certa dose de experimentalismo. 

Vento e alguma chuva batendo na varanda nas proximidades do rio Amazonas, Mirandão põe pouco gelo no scotch, acende o charuto, pluga o IPod num system, inicia a viagem sonora pelo mundo. E, de repente, o baixista Saddy grita: “É isso. Olha o Otto aí”.

 

otto_tiagolima

 

 

Nessa hora o Miranda estava tocando Erasmo Carlos. O produtor nega a unanimidade em torno de Carlos, Erasmo, de 71 (“É um disco completamente Vila Madalena”); prefere Sonhos e Memórias (72) e Projeto Salvaterra (74), mas concorda que essa trinca de álbuns é imbatível. Eu próprio vacilei, quando ele colocou, sem dizer quem era, a primeira música música do cantor. “Não Te Quero Santa”. Sabia que já tinha ouvido, sabia que era dos anos 70, mas não lembrava de quem era aquela voz casual e pequena, porém de muita emoção. 

E foi nas próximas faixas do parceiro do Roberto que o Saddy, o pesquisador mais empenhado da MiniBox (partiram dele as principais sugestões das músicas a tocar nos encontros com Jorge Mautner e o Macalé, que surpreenderam e agradaram os dois artistas), sacou essa conexão com o Otto – o pernambucano, não o tecladista homônimo da MiniBox. Pois eu estava pensando coisa parecida durante o consagrador show do Otto no Conexão Vivo de Salvador.

Eu sou padrinho musical do Otto. Fui eu que dei um jeito de levar o Apollo 9 para Recife e apresentá-los, quando ele tinha saído do Mundo Livre, o que acabaria dando no hypado álbum Samba Pra Burro. Durante uns quinze anos depois desse encontro estratégico, vi o Otto estrear caoticamente seu projeto solo no Abril Pro Rock, gravar com os recém-conhecidos amigos paulistas no estúdio dos fundos da YB, ser contratado e vestido pela Trama, hypar absurdamente com o disco de estréia, fazer uns álbuns subestimados, casar com a global Alessandra Negrini, ter sempre uma ótima banda, ser um dos brothers brasileiros da ótima Nublu Orchestra (o que viria a salvá-lo do ostracismo, pois o disco mais recente saiu antes pelo selo da Nublu nos Estados Unidos, e certamente não teria saído aqui sem isso), separar-se da Negrini e ir ao fundo do poço.

No Conexão Vivo do ano passado em Campinas, o Otto nos bastidores era um cara cachaçado, virado 36 horas sem dormir nem trocar de roupa, contando uma história meio suspeita sobre ter passado a noite com um casal de intenções estranhas, com um tom ainda mais exaltado do que de costume, um toque de sordidez e perigo. Cometo essa inconfidência não de sacanagem, mas porque o processo de morte e renascimento do Otto é de grande beleza.

Morte? Exagero? O Otto é uma força da natureza. A sua queda tem dimensões extremadas, como tudo que ele vive e narra. “Tentaram me matar, matar de verdade”, disse ele nos bastidores do Conexão em Salvador, acompanhado de sua linda filhinha (uma bonequinha cheia de graça e personalidade). Ele continua o desabafo: “O que era aquele pernambucano se casando com a Alessandra? E pior, em Pernambuco maltratavam a Alessandra também. Chegaram a me convidar e negar passagens a ela para o Carnaval”. Uma pressão injusta, rancorosa, sem propósito, seguida a um hype igualmente despropositado e desproporcional. Uma coisa de desorientar qualquer um de poucos recursos psíquicos.

A separação seria apenas a pá de cal. Fim do Otto. Kaput. Mas quando o novo Otto pisou o lindo palco do Conexão na praia da Pituba, com seu sorriso de dente de prata, era um homem desmontado e reconstruido, aperfeiçoado em sua coragem, redimido em sua sinceridade, polido em sua grandeza, sereno em sua inspiração. Tudo pelo poder de destruição de uma mulher, e pelo poder de reinvenção da música (CONTINUA).

*

En passant. Ainda sobre axé music: esse termo cunhado pelo meu amigo Hagamenon é infeliz, de grande maldade e preconceito. Hagamenon o usou pejorativamente, como se “axé” significasse uma coisa ligeira, felizinha, inconsequente. Mas mais do que uma saudação de boa sorte, no sistema do Ifá o “axé” se refere à movimentação e transmissão da própria energia primordial. A piada voltou-lhe (voltou-nos) à cara. O termo e a música pegaram. É por isso que eu digo axé. E digo music. Como quem diz a mesma coisa.

 

 

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