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Entrevista com Macaco Bong

Uma estréia arrebatadora
Por Administrador - 22/03/09 11:40


Conexão Vivo Por Agência MN Fabian Chacur

O power trio Macaco Bong, de Cuiabá (MT), viu seu primeiro CD, Artista Igual Pedreiro, eleito como o melhor lançado no Brasil em 2008 pela Rolling Stone. Confira entrevista exclusiva com a banda.

O Macaco Bong iniciou suas atividades em 2004, ainda como um quarteto, na cidade de Cuiabá (MT). Em 2005, tornou-se um trio. Integrado por Bruno Kayapy (guitarra), Ynaia Benthroldo (bateria) e Ney Hugo (baixo), fez desde o princípio a opção pelo rock instrumental, sem se prender a amarras e acrescentando fortes elementos de música brasileira, jazz e o que mais pintar. Participaram dos principais festivais independentes do Brasil, cativando um público cada vez maior. Após lançarem dois EPs pela via virtual, com ótima repercussão, estrearam no formato CD com Artista Igual Pedreiro (Monstro Discos/Fora do Eixo Discos). Em pouco tempo, tornou-se um dos álbuns mais elogiados e comentados do rock brazuca, liderando o Top 50 dos melhores discos nacionais de 2008 da revista Rolling Stone, e de quebra a sexta melhor música com Amendoim. Em entrevista feita com seu baixista Ney Hugo a Conexão Vivo, você poderá conferir a história e os projetos desse power trio explosivo.

CONEXÃO VIVO- Como é para vocês, uma banda independente fora do eixo Rio-São Paulo, ter seu disco de estréia considerado o melhor álbum nacional do ano no Brasil por uma revista importante como a Rolling Stone? O que vocês acham que isso pode ajudar na carreira de vocês? Esperavam isso, ou foi uma surpresa?

NEY HUGO- Cara, isso é a resposta positiva a todo um trabalho árduo de construção que vem sendo feito na música brasileira hoje, em que a produção se dá toda em conta da autogestão e do associativismo. O Macaco Bong foi uma banda que surgiu dentro do Instituto Cultural Espaço Cubo e desde o início já procurando trabalhar a autogestão. O reconhecimento da revista se dá tanto pelo fato estético e por termos circulado bastante pelo país, quanto pela representação do trabalho da banda. O nome Artista Igual Pedreiro é um ótimo símbolo pra esse novo momento. Isso ajuda com uma repercussão tremenda. Quem pesquisa música hoje e não lê a RS?  Não esperávamos, recebemos a notícia com muito entusiasmo, porém conscientes do momento que isso representa, o que nos mantém os pés no chão pra continuar trabalhando.

CONEXÃO VIVO- O álbum do Macaco Bong, Artista Igual Pedreiro, saiu por um selo independente. Em algum momento existia a disposição de tentar descolar um contrato com um selo multinacional, ou desde o início a intenção era mesmo sair pela via indie? Como surgiu a Monstro Discos no caminho de vocês?

NEY HUGO- Como disse na resposta anterior, o Macaco desde o começo sempre foi muito bem resolvido quanto a isso. A banda nasceu na perspectiva da autogestão. É legal contextualizar que o Macaco Bong é um programa dentro da estrutura do Espaço Cubo, que desenvolve várias ferramentas de viabilização, fomento e estímulo à produção cultural. Nunca procuramos uma grande gravadora. O disco saiu pela Fora do Eixo Discos, que é a responsável pela distribuição no Circuito Fora do Eixo, uma rede que conectou dezenas de estados brasileiros e cresce a cada dia. Sempre tivemos uma relação próxima com a Monstro, desde a participação de Fabrício Nobre em mesas de discussão no Festival Calango desde lá em 2005, quanto no trabalho com as bandas do selo. Surgiu o interesse e a parceria se deu de uma maneira muito bacana, em que ambos trabalham juntos, sem que um invada o campo do outro. É uma parceria com uma empresa do mercado médio e não uma amarra com uma grande gravadora multinacional pagadora de jabá (rs). 

CONEXÃO VIVO- Falem um pouco mais sobre o disco. Como o avaliam? Ele reflete bem o que é a banda, ou ainda faltam facetas a serem registradas? Existe um conceito em torno dele, ou vocês gravaram as músicas sem essa preocupação? E como andam as vendagens do mesmo, nos diversos formatos (físicos, digitais etc)?

NEY HUGO- O disco retrata bem o momento que a banda viveu nesses primeiros anos de trabalho e é um bom registro dessa primeira fase, digamos, o primeiro show. Existe sim um conceito pensado para o disco, no que diz respeito às timbragens e o formato. A idéia principal era reproduzir o som da banda no palco (êta, desafio). Porém permitindo alguns detalhes como guitarras a mais, moogs bem discretos e as vozes em “Vamodahmaisuma”. As vendagens foram ótimas, já chegamos praticamente ao fim da primeira prensagem (mil cópias) e estamos articulando uma nova. E os downloads também são bem expressivos. Na primeira semana, o presidente da Trama, João Marcelo Bôscoli, contou em entrevista à Rolling Stone Brasil que o disco foi baixado 700 vezes somente nos três primeiros dias em que ficou disponível. 

CONEXÃO VIVO- Vocês investiram em um setor não muito presente no rock nacional, que é o do som instrumental. A idéia de vocês era essa desde o começo, ou isso foi se consolidando com o tempo? Pretendem também investir em músicas com vocais de forma mais efetiva?

NEY HUGO- Na verdade, o instrumental vem tendo uma visibilidade bacana na cena. Tem várias bandas rolando. E a idéia sempre foi essa, mesma, o Macaco surgiu com o conceito de uma banda (de rock) instrumental. Pensamos sim em músicas com vocal, mas algo na linhagem de como foi “Vamodahmaisuma”, ou solfejos, melodias etc. Canções mesmo, com letra e refrão não estão nos planos.

CONEXÃO VIVO- “Amendoim” foi eleita a sexta melhor música nacional de 2008. Como vocês a descrevem? Concordam com a opinião da Rolling Stone, que a considera "a música que define o som do trio instrumental de hard rock de Cuiabá"? Esperavam que essa fosse a faixa mais destacada deste disco? Acharam legal a associação que a RS fez, dizendo que "Jimi Hendrix e o Rush ficariam orgulhosos"?

NEY HUGO- Bom, não somos exatamente um trio de hard rock, apesar de ser uma das nossas influências (Eddie Van Halen é rei!). Mas a associação é do caralho! Pra buscar descrever e contextualizar, a revista buscou nomes bem conhecidos por todo mundo. Sabemos que não é comum comparações com Hendrix e Geddy Lee. Apesar de, juro, não serem nossas principais referências em guitarra e baixo (rs). O nome da música surgiu em cima do palco. Como havíamos comido um saquinho de amendoim naquele dia, ficou amendoim. Como descrevemos? Afrodisíaca!

CONEXÃO VIVO- Vocês e o Vanguart são os nomes mais conhecidos do rock de Cuiabá em termos nacionais. Como é a cena local, em termos de rock? Existem diversas bandas, espaços para tocar, mídia própria, divulgação? É possível sobreviver de música tocando por lá, ou a busca por novos horizontes é inevitável? Pretendem ter Cuiabá como base sempre, ou existem planos de mudar para outra cidade mais próxima do eixo Rio-São Paulo?

NEY HUGO- A cena em Cuiabá está massa! Num momento em que as bandas cada vez mais entendem o processo da autogestão e das ações realizadas associadamente. Existem várias bandas, espaços bacanas, duas casas de shows (infelizmente, apenas duas). Nós vivemos exclusivamente disso. Alguns integrantes de bandas ainda têm outros empregos, mas todos com consciência de que aquilo é temporário e que se trata de uma fase de transição na vida deles. O cara quando vê as possibilidades, decide que não quer ficar atrás de mesa de escritório. E tem uma alternativa muito bacana que é o Cubo Card, uma moeda complementar criada pelo Espaço Cubo que auxilia muito a sobrevivência das bandas. Impresso em papel moeda, hoje o Cubo Card dá acesso a ensaios, gravações, vestuário, restaurante, hotel, assessoria de imprensa, consultoria técnica, CDs, DVDs, produção de eventos entre vários outros produtos e serviços (mais informações em www.cubocard.blogspot.com). Cuiabá é nossa base. Qualquer mudança pra outra cidade seria atendendo a uma demanda surgida nesse processo. E no momento, a demanda toda do nosso trabalho está em Cuiabá, trabalhando em outras cidades com shows, debates e formação de novos agentes que possam se integrar à rede do Circuito Fora do Eixo.

CONEXÃO VIVO- Como vocês encaram a cena independente do rock brasileiro na atualidade? Existe muito intercâmbio entre os artistas?

NEY HUGO- O Circuito Fora do Eixo tem permitido essa forte integração não só de artistas, mas também de produtores, jornalistas e todo mundo que está envolvido nessa cadeia, o que vai desde o técnico de som até o tio que vende o cachorro quente no festival. Até porque grande parte dos integrantes de bandas são também atuantes nos coletivos em suas cenas locais. O diálogo passa a ser cotidiano e necessário. 

CONEXÃO VIVO- Existem vários festivais independentes de rock no Brasil. Vocês encaram esse tipo de evento como fundamental para a divulgação das novas bandas? Tocar em festivais ajudou vocês a ficarem mais conhecidos? Quais marcaram a sua carreira, até aqui?

NEY HUGO- Sem dúvida. Os festivais são hoje a grande vitrine da nova música brasileira. Lembro-me do Pablo Capilé (coordenador de planejamento do Espaço Cubo) falando que os festivais substituem hoje o papel das rádios de antigamente, mostrando as novas músicas e novas bandas. E é também o catalisador de uma cena, o que faz com que as ações em torno da cultura continuem acontecendo durante o ano todo. Ter tocado em festivais independentes foi fundamental para a difusão da banda e articulações do Circuito Fora do Eixo. Citando alguns, Grito Rock festival(MT), Festival Calango(MT), Goiânia Noise Festival(GO), MADA Festival(RN), Primeiro Campeonato Mineiro de Surf(MG), PMW Festival(TO), Festival Varadouro(AC), Festival Jambolada(MG), Festival Demosul(PR), Vaca Amarela Festival(GO), Rec Beat(PE), Festival Fora do Eixo(SP), Volume Festival(MT), Porão do Rock(DF), Se Rasgum(PA), Goiânia Noise(GO), Goiaba Rock Festival(GO), Festival Casarão(RO), Festival Eletrônika(MG), Festival Quebramar(AP), Fogo no Cerrrado(MS), Festival Dosol(RN), Festival Contato(SP), Festival Mundo(PB), El Mapa de Todos(DF), Conexão Vivo, Semana da Música(MT), todos muito importantes.

CONEXÃO VIVO- Há várias formas de se divulgar uma banda. Como vocês atuam, nesse sentido? Qual a importância de myspace, orkut, internet etc para que um artista novo possa tornar seu som conhecido?

NEY HUGO- Importância total. Hoje temos os seguintes veículos:
www.flickr.com/macacobong - fotos
www.myspace.com/macacobong - Escute!
www.sonicbids.com/macacobong - listen!
http://albumvirtual.trama.uol.com.br/ - Album
www.fotolog.com/macacobong - fotos
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=1428902 – orkut
Imprensa, produtores, público, todo mundo tem a internet como principal fonte de busca. Banda que não se divulga na net está morta.
 
CONEXÃO VIVO- Há quem considere o formato físico (CD) com os dias contados, enquanto outros acham natural a convivência de uma diversidade de formatos, físicos e digitais, para se divulgar a música. Qual a opinião de vocês sobre isso?

NEY HUGO- Concordamos com essa pluralidade de viés de distribuição. O fato é que hoje o artista não ganha com a vendagem de CDs, mas sim com shows. Na verdade, quem ganhava grana com CDs sempre foram as grandes gravadoras. Logo, é uma realidade bem diferente do processo atual, de autogestão das bandas independentes. Achamos que convém demais disponibilizar a música na internet, é isso que faz a informação da banda circular e faz a ponte para fechar shows, além de criar público à distância. O CD entra como um cartão de visitas para produtores e jornalistas e para o fã que mantém o hábito clássico de ter o disco físico em mãos, o que também é muito válido e legítimo.

CONEXÃO VIVO- Quais são as influências básicas para o som que vocês fazem? Que artistas/grupos consideram importantes para a formação de vocês enquanto músicos?

NEY HUGO- Bom, vou ser bem objetivo, hehe. Referências musicais são variadas, ouvimos de tudo, jazz, blues, samba, salsa, música africana, música oriental, bossa nova, chorinho, jazz/fusion ao rock oitentista, hard/rock, power pop, punk, hardcore, rock progressivo, metal progresivo, heavy metal, death, metal, trash, splatter, música eletrônica... Nomes pode-se citar Death, Meshuggah, Pantera, Dark Funeral, Dream Theater, Yellow Jackets, Weather Report, Uncle Moe`s Space ranch, Pat Metheny, Milton Nascimento, Ebinho Cardoso, João Bosco, Toe, Richard Bona, Nofx, Tribal Tech, Pat Metheny, Richard Bona, Chick Corea, Mogwai, 65 Days of Static, Charlie Parker, Herbie Hancock, Level 42, Joe Satriani, Tom Jobim, Arthur Maia, Michael Jackson, Booka Shade.
Por instrumentista:
Ynaiã: Jojo Mayer, Carter Beauford, Kiko Freitas, Vinnie Paul, Sandro Souza, Tomas Haake, Sandro Souza, Dennis Chambers, Richard Bonna, Cindy blackman, Art Blakey, Taylor Hawkins, Vinnie Colaiuta, Virgil Donate, Benny Greb, Omar Hakin, Jack DeJohnette, Johnny Rabb, Max Roach, Steve Smith, Paul Wertico e Antonio Sanchez.
Ney: Charles Mingus, Robert Trujillo, Ebinho Cardoso, Paulo Xisto, Gary Willis, Stu Ham, Rex Pantera, Dick Lövgren, Lemmy Kilmister, Ney Conceição, Nate Mendel, John Paul Jones, Luizão Maia, Stefan Kahil Lessard, Richard Bona.
Kayapy: Dimebag Darrel, Angus e Malcom Young, Pat Metheny, Paco de Lucia, Wes Montgomery, Allan Holdsworth, Chuck Schuldiner, Kurt Cobain, Nelson Faria, Scott Henderson e Eddie Van Halen.

CONEXÃO VIVO- Como encaram os festivais que permitem às bandas novas interagir com as consagradas?

NEY HUGO- É ótimo porque vai quebrando o mito do artista iluminado, aquele ser nomeado por Deus, que tem um dom especial e está em cima de todo mundo. E isso não acontece só nos festivais que tem as “consagradas” como também nos que não tem. Muitas bandas estão conquistando público e credibilidade saindo da lógica do semideus. Mas não é uma máxima determinante. O Festival Calango(MT) por exemplo jamais contratou um headliner de grande gravadora por achar que o público de fulano vai ver as outras bandas. E o público foi formado por pessoas que vão ao festival para ver a nova música brasileira, já esperando pelo show de algumas bandas e sabendo que vai conhecer outras muito legais que ele ainda não tinha ouvido falar.

CONEXÃO VIVO- Existem artistas brasileiros com os quais vocês gostariam de trabalhar?

NEY HUGO- Com certeza! Porcas Borboletas, Filomedusa, Trilobit, Nevilton, Madame Saatan, Johnny Suxxx and the Fuckin Boys, Curumin, Astronautas, Mini Box Lunar, Monno, Móveis Coloniais de Acaju, Supergalo, Montage, Diego de Moraes, Ebinho Cardoso, AMP, Nuda, Black Drawing Chalks, Orquestra Abstrata, The Name, Boddah Diciro, The Sinks, O Garfo, Subtropicais…

Ih velho, muita banda!

Nação Zumbi, Milton Nascimento, Sepultura, Ivan Lins, Pitty (são brothers), DJ Patife, Sérgio Buss…

O mais próximo disso que chegamos foi um trabalho muito bacana feito recentemente com a Pata de elefante, que somos fãs e parceiros. Link do Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=I20vQuhBGiw.

CONEXÃO VIVO- Como é o processo de composição de vocês? Só pretendem gravar material próprio, ou composições alheias também podem entrar na mistura?

NEY HUGO- Composições alheias só em casos específicos, tipo, versões instrumentais de músicas do Pearl Jam, Michael Jackson ou Madonna. As músicas são feitas coletivamente no estúdio. Normalmente surgem a partir das melodias da guitarra que tem a função de voz principal. A lapidação se dá com a construção rítmica da bateria, e da tônica do baixo, que conecta a melodia com o ritmo.

CONEXÃO VIVO- Vocês tem outras ocupações ou conseguem sobreviver de música?

NEY HUGO- Sobrevivemos da música, executando outras várias ações que envolvem seu universo. Ynaiã trabalha com discos e agenciamento, Kayapy com sonorização e áudio e eu com comunicação. Isso focado nos trabalhos do Espaço Cubo e do Circuito Fora do Eixo. 

CONEXÃO VIVO- A pergunta mais óbvia ficou para o final: de onde vem o nome Macaco Bong?

NEY HUGO-Não sei. Quando entrei na banda o nome já existia (rs). Mas veja bem, Macaco Bong é um nome super sonoro. Não significa nada em texto, mas é sonoro e as pessoas lembram fácil, até as que não gostam, rs.

Comentários

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