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Entrevista: Luisa Mandou um Beijo lança segundo ábum
A equação Rio + dadaísmo + amor segue firme e se mostra capaz de ampliar o espectro sugerido no primeiro trabalho.
Por Administrador - 01/03/09 22:55
Fonte Music News Por Carlos Eduardo Lima (CEL) Rock Press
Demorou mas saiu. Não o segundo disco homônimo da banda carioca Luisa Mandou um Beijo, mas essa entrevista. Uma série de idas e vindas, hd's traiçoeiros e problemas de saúde na família deste que vos escreve fizeram com que as preciosas palavras dos integrantes da Luisa ficassem sem ver a luz do dia por quase seis meses. Minha culpa, admito. Como tudo tem um lado positivo, a entrevista agora faz mais sentido, uma vez que o maravilhoso novo trabalho deles foi lançado há alguns dias.
A equação Rio + dadaísmo + amor segue firme e se mostra capaz de ampliar o espectro sugerido pelo primeiro trabalho, de 2005. Este disco anterior teve suas músicas ouvidas gradativamente na redação de Rock Press quando ela ainda era uma revista "física" e nos fez felizes em diferentes situações.
Fernando Paiva, líder da banda, sabe disso e menciona o fato abaixo. A gente não esconde a admiração pela Luisa desde que seus integrantes divulgavam fotos com bonecos Playmobil para evitar a associação da imagem deles com seu som.
Basicamente, o que você precisa saber, caro leitor, é que esta banda carioca parece ser o mais bem urdido casamento entre a estética indie e algum tipo de flerte com uma MPB ensolarada do inconsciente. Algo parecido com o Los Hermanos em 2001, mas livre de quaisquer vícios estéticos ou ególatras.
Formação atual: Flávia Muniz (voz), Fernando Paiva (guitarra), PP (guitarra), PC (baixo), Shockbrou/Daniel Paiva (trompete) e Luciano Grossman (bateria).
CEL- O que muda no som da Luisa neste segundo disco?
Fernando - Acho que amadurecemos musical e liricamente. A meu ver, os arranjos estão mais sofisticados e as letras mais bem trabalhadas -- vide o caso de "A Obsessão de Sueli", minha preferida ali. Além disso, está um disco mais plural em termos de autoria. Enquanto no primeiro todas as músicas eram minhas, nesse segundo há várias músicas da Flávia, várias minhas, uma do PP (guitarrista) e uma do PC (baixista). Acho que ouvindo o disco dá pra perceber essa pluralidade, embora haja também algo que una todas essas músicas dentro do projeto. Talvez os arranjos, não sei.
Flávia - Ainda não pintamos o céu lilás mas é um segundo disco com 6 canções minhas, uma do PP, uma do PC e 6 do Fernando. Menos pop. Tô gostando de escutá-lo.
Daniel – Esse disco é mais coletivo. Os arranjos foram feitos com todos tocando juntos em estúdio. É um disco que representa melhor a banda como um todo.
CEL- Como vocês estão lidando com a projeção que a banda ganhou desde o lançamento do primeiro trabalho?
Fernando - Não chega a ser uma projeção que tenha mudado as nossas vidas. Somos relativamente bem conhecidos no cenário alternativo brasileiro, mas nada além disso. É legal entrar no Orkut e ver que a nossa comunidade tem mais de mil membros. Ou ver no Last FM que cerca de 10 mil pessoas já nos escutaram. Mas isso não muda o direcionamento da banda ou nada em nossas vidas. Continuamos fazendo música porque amamos fazer isso. E, claro, quanto mais gente nos escutar, mais felizes ficaremos!
Flávia - É uma projeção de cujo alcance não temos noção. Eu gosto de ouvir o que o público tem a dizer. Muitas vezes não me dou conta de que a banda já existe há oito anos.
Daniel - Não sinto tanta projeção assim. Só quando tocamos em São Paulo, onde o público canta as músicas etc. Fora isso somos bem desconhecidos.
CEL- Os integrantes da Luisa têm profissões "oficiais". Como vocês encontram tempo para conciliar a banda com as demais tarefas?
Fernando - Nós somos uma banda que faz poucos shows. Deve ser porque não temos um empresário até hoje. E quase não corremos atrás -- por falta de tempo mesmo. Acabamos tocando em função dos convites que aparecem. Fazemos uns cinco ou seis shows por ano, mais ou menos. E ensaiamos uma vez por semana, sempre à noite. Enquanto continuar assim dá perfeitamente para conciliar com outros empregos. Mas se a banda "estourasse" e começasse a tocar por toda parte, talvez teríamos que repensar a relação com a banda e com nossos respectivos empregos.
Flávia - Bom... Eu não tenho outra profissão. Eu poderia dizer que sou jardineira, mas gostar de arar a terra não significa que tenha domínio desse ofício. Tenho me perguntado o que faço aqui na Terra. Ser humano é minha profissão enquanto habitante do planeta.
Daniel - Como qualquer um encontra tempo pra ter um hobby. Mas é um hobby levado a sério.
CEL- O que vocês acham da situação da indústria musical atualmente?
Fernando - Está havendo uma revolução de uns anos para cá. A internet popularizou a distribuição e a indústria fonográfica está tendo que se reinventar. Acho que existe um processo em curso de democratização do acesso à cultura. E uma das iniciativas mais bacanas nesse sentido é o Creative Commons, instrumento que, aliás, utilizamos para licenciamento das nossas músicas. Em tempo: nós mesmos temos discutido internamente na banda se vale a pena continuar a lançar músicas no formato de "álbuns". Temos nos perguntado se não vale mais a pena ir gravando de três ou de quatro em quatro músicas, conforme elas são compostas, e disponibilizar na internet. Por que esperar termos 13 composições arranjadas para começar a gravá-las?
Flávia - Indústria? Acho que estamos numa fase de transição. A internet é o nosso meio de divulgar a Luisa. É assim que nos comunicamos até agora.
Daniel - Acho muito boa. Principalmente para bandas que tocam músicas próprias. Pode-se gravar em casa e distribuir de casa (pela internet) e assim corta-se os intermediários.
CEL- Seria injusto dizer que a Luisa é uma dessas bandas que deve sua projeção somente à internet, mas, vocês conseguem se imaginar sem a facilidade que a grande rede proporciona?
Fernando - Sem a internet tudo seria mais difícil. Foi graças à internet que conseguimos distribuir nosso primeiro CD na Inglaterra e na Espanha. E foi também graças à internet que conseguimos participar de coletâneas internacionais de selos do Japão, Singapura, Itália e Alemanha. É uma mão na roda, sem dúvida.
Daniel - Somos do tempo da fita demo! Antes, sem a internet, havia uma rede de comunicação via correio, zines etc... Todos nós tivemos bandas nessa época e passamos por isso. Era mais devagar mas tudo acontecia também. Hoje é tudo muito fácil. Mas é fácil pra todo mundo. Se destacar no meio de tantas opções é que é difícil.
CEL- A Luisa já tem três clipes gravados, todos dirigidos e concebidos pela banda. Clipe é essencial ou vocês acham que a imagem dispersa a atenção da música?
Fernando - Não acho nem que seja essencial e nem que disperse a atenção da música. Para mim é uma oportunidade para expressão artística, muito mais do que exatamente uma ferramenta de divulgação. Os clipes que chamamos de "oficiais" na verdade foram concebidos por membros da banda, mas não pela banda. Eu fiz clipes para "Bauhaus Today" e para "Desfeito em luz". E meu irmão (o trompetista da banda) fez um clipe para "Guardanapos". Acho que nesses três clipes o principal objetivo era fazer arte, era se expressar. Se ainda por cima o clipe ajudar na divulgação da banda, melhor ainda. Eu nunca vou dirigir um clipe para fins unicamente comerciais da banda. Não tenho a menor vontade. E há também muitos clipes feitos por fãs. Alguns são sensacionais, como um de "Anselmo" com cenas do cinema novo e da nouvelle vague.
Flávia - A idéia dos nossos clipes é criar um diálogo entre as várias formas de expressão. Literatura, cinema, teatro, música, artes plásticas (acho que até agora foi isso). O Fernando tá bolando um clipe novo agora com dança contemporânea. O essencial é a gente poder se expressar. Os seres humanos são muito visuais. Quando fechamos os olhos imaginamos. Podemos criar miniclipesparticularis. Acho que foi por isso que os fãs criaram imagens diferentes pras mesmas músicas.
Daniel - Clipe é legal mas é outra coisa... outro meio. A ideia é produzir uma outra obra com a música como trilha sonora.
CEL- Vocês sempre informaram que o som da banda é calcado em três pilares. Amor, dadaísmo e Rio de Janeiro. Como funcionam essas associações?
Fernando - Esses eram conceitos que usamos no lançamento do primeiro disco para explicar um pouco o projeto. Amor é algo muito presente nas letras, assim como imagens do Rio de Janeiro. O dadaísmo aparecia mais no conceito de representação da banda: usávamos tirinhas em quadrinhos para nos representar no lugar de fotos. Mas para esse novo disco decidimos interromper essa idéia e tirar fotos "reais" de divulgação.
Flávia - Amor é o que há de mais importante na vida, não é? Por curiosidade: no show do Cinematheque com a Malu Magalhães, uns meninos de Niterói vieram falar que utilizaram nossas músicas como referência para um trabalho do colégio sobre dadaísmo. Gostamos mesmo é de pintar aquarelas com palavras. Acho que nossas músicas passeiam pelos lugares da cidade. Temos os olhos arregalados para a desigualdade social, a violência, a impunidade, mas cantamos a alegria de viver aqui. A cultura é o que temos para mudar e transformar. Estamos atentos.
CEL- Quem vocês estão ouvindo atualmente e quais as influências para o novo disco?
Fernando - Posso falar por mim. Estou ouvindo muito Broken Social Scene, Beirut, Cérebro Eletrônico e Tom Zé. Sobre as influências do novo disco, acho que tem um pouco de muita coisa. Eu vejo ali um quê de Mutantes, uma pitada de Los Hermanos, um pouco de MPB e de indie rock em geral. Mas se você perguntar pra cada um da banda ouvirá respostas completamente diferentes.
Flávia - Tenho ouvido Beirut, um exemplar raro do Grande Circo Místico que comprei por 10 reais na Sociedade Viva Cazuza, Choro para afinar os ouvidos na Escola Portátil, escutei bastante o Emerdalle - the Cardigans antes de gravar, o myspace tem sido um bom companheiro: Pedra Lispe, Negro Mendes, Simplício Neto, Na Ozetti, Glória Bonfim, Ava Rocha etc. Além disso: Afrosambas, mixagem do nosso disco, gravação das minhas músicas, Imbarabô, baião de princesa, silêncio, vento, pássaros...
Daniel - Mutantes, Frank Zappa, Hermeto Pascoal (sempre). Little Joy, Móveis Coloniais De Acaju (as mais recentes). Não tem influências para o novo disco. Tudo em volta é influência e vai somando com o tempo.
CEL- Voltando um pouco no tempo, como surgiu a banda?
Fernando - A Luisa surgiu como um projeto solo meu em 1999. Gravei minhas músicas em uma mesa de quatro canais, ainda na época das fitas K7. E chamei a Flávia para cantar minhas músicas. Depois disso o projeto se tornou coletivo, pois convidei vários amigos para completar a banda. Shockbrou (trompete), PP (guitarra) e PC (baixo) estão desde o primeiro show com a banda.
Flávia - Fernando convidou pra cantar as músicas dele. Gravamos numa mesa de quatro canais no porão da minha ex-casa, isso em 1999. Colocamos na Internet e um ano depois montamos a banda. Quando ele me chamou pro projeto eu lia "Hóspede da Utopia", que tinha uma personagem Luisa muito maneira. Topei na hora.
CEL- A banda tem uma imagem bem feminina, por conta do nome e da vocalista Flávia, o que vocês acham disso?
Fernando - Eu acho ótimo. Meu lado feminino agradece!
Flávia (rindo): Espero que isso não soe como competição mas o mundo é das mulheres!!!! É bom que o feminino esteja mais presente. Dizem que minha voz é doce, mas eu nem como açúcar...
Daniel - Acho muito bom. Viva as mulheres!
CEL- O primeiro trabalho de vocês traz uma canção chamada "Anselmo", uma bela homenagem ao cinema. Podemos esperar mais influências do cinema nesse novo disco?
Fernando - Olha, esse disco ia ter uma música chamada "Valsa para Almodovar nº 3", mas ela acabou não entrando no tracklist. Pode ser que a gente lance mais tarde na internet. Entre as que estão no disco não lembro agora de nenhuma especificamente que mencione algo relacionado a cinema. O que aparece muito nas letras são imagens sobre praias e mares. É um disco praiano.
Flávia - As letras são cinematográficas. Memórias da praia é um filme. Um clipe. Um curta! Acho que esse disco vai inspirar boas imagens!
CEL- As músicas da banda já integram duas coletâneas feitas no exterior. O espaço para vocês lá é maior que no Brasil?
Fernando - Não. Somos muito mais conhecidos (ou seria menos desconhecidos?) aqui. No exterior temos fãs pontuais em em vários países. Mas já aparecemos em vários sites e revistas independentes internacionais. E volta e meia recebemos emails de fãs do exterior. Que eu me lembre agora, já entraram em contato com a gente fãs dos seguintes países: Argentina, Chile, México, Peru, EUA, Porto Rico, Espanha, Portugal, Inglaterra, Alemanha, Itália, Suécia, Luxemburgo, Sérvia, Islândia, Singapura, Japão e Indonésia.
Flávia - Não sei se isso é questão de sorte, gosto ou espaço, mas é bem verdade que só saímos em coletâneas gringas. Acredito que o espaço exista em todos os lugares.
CEL- Qual foi a coisa mais estranha que já aconteceu com vocês num palco?
Fernando - Olha, o momento mais feliz para mim foi ouvir a galera cantando "Amarelinha" bem alto no show de lançamento do primeiro disco na Funhouse, em São Paulo, a ponto de a vocalista parar de cantar e deixar o refrão com a galera. Também ficamos surpresos no show da Virada Cultural quando vimos uma menina com um cartaz pedindo uma música. Mas de estranho mesmo não lembro de nada agora...
Flávia - Eu fui alvo de latinha de cerveja.
CEL- Quais as melhores bandas do Rio atualmente?
Fernando - Gosto de Orquestra voadora, Fanfarra Paradiso, Filme, Subterrâneos (que acabou recentemente) e 3 a 1. Pelvs é excelente também.
Flávia - O Filme.
Daniel - Brasov, Canastra, Ava.
CEL- O que vocês gostariam de responder e que nunca é perguntado em entrevistas?
Fernando - Gostaria que me perguntassem qual é o sentido da vida. A resposta eu deixo para a próxima entrevista!
Flávia - Como já disse acima estou ligada na questão dos direitos humanos. Gostaria de viver num mundo mais justo. A questão da Amazônia, da água, da fome(?), da Aids, da desigualdade são muito fortes. Um outro mundo é possível. A pergunta é: por que precisamos mudar o mundo?
CEL- Hoje em dia pra quem a Luisa manda um beijo?
Fernando - A Luisa manda um beijo para todo mundo que sabe amar e ser amado. Em tempo: "Luisa mandou um beijo" é apenas um nome que conota as várias idéias que combinam com as letras da banda, como saudade, carinho e feminilidade. Luisa não é homenagem a nenhuma "Luisa" especificamente. É apenas um nome que eu achava bonito na época, que eu poria numa filha minha.
Flávia - Agora vou dizer o que queria ter dito ali em cima. Eu digo que o beijo vai pra humanidade. Em 2008, a declaração universal dos direitos humanos completou 60 anos. É inadmissível que ainda haja desigualdade e injustiça. Moramos na mesma casa-planeta Terra. Todos são responsáveis por todos.
Todas as faixas do CD estão disponíveis para download no site da banda: www.luisamandouumbeijo.com.
Onde você pode comprar o disco novo da Luisa Mandou um Beijo:
Nos sites - www.mmrecords.com.br e www.volumeone.com.br ou diretamente com a banda através do email: luisamandouumbeijo@bol.com.br. O preço é de R$ 15 (com frete incluído).







