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A morte do menino e a morte do homem

A lenda do pop se foi aos 50 anos
Por Administrador - 30/06/09 11:38


 

Fonte Music News, Por Zeca Azevedo (Portal RockPress)

Michael Jackson está morto. Quando li a notícia de que ele teria sofrido um ataque cardíaco e que estava no hospital em estado grave, achei que se tratasse de mais uma daquelas notícias sensacionalistas sobre o cantor com que nos acostumamos nos últimos anos. Cheguei a pensar que poderia se tratar de um truque publicitário de Michael para promover a série de shows que ele estava prestes a fazer em Londres em julho. Ou então alguma estratégia para fugir da responsabilidade de fazer esses mesmos shows. À medida em que as notícias se sucediam, percebi que eram verdadeiras. O site de fofocas TMZ deu o furo de reportagem, o jornal Los Angeles Times confirmou a notícia, outros veículos de peso checaram a informação. Era verdade. Michael Jackson estava morto.

Para ser sincero com o leitor, a notícia da morte de Michael Jackson não me abalou de imediato. Para mim, um fã velho e chato de soul music, Jackson já tinha morrido há pelo menos duas décadas, tanto do ponto de vista musical quanto do ponto de vista existencial. A música que ele fez a partir do álbum Bad, de 1987, salvo uma ou outra canção, não me agradava, fazia concessões demais ao pop e deixava para trás o punch da música soul, do funk e do R&B.

Visualmente o cantor me desagradava ainda mais, com o rosto deformado por uma série de cirurgias infelizes e com a pele clara própria de um caucasiano. E ainda havia toda a polêmica em torno da vida privada de Jackson, as acusações de pedofilia, o comportamento irresponsável com os filhos, os casamentos evidentemente arranjados e outras esquisitices. O circo de mídia em torno de Jackson era repulsivo para mim.
 
No entanto, ainda sob o impacto da notícia da morte do cantor, vi a imagem da capa do álbum Music and Me de 1973 na internet e, em um instante, fiquei com os olhos marejados. Por quê? Um minuto antes eu estava com o coração fechado para a morte de Michael Jackson. A simples visão da capa de um álbum solo de Jackson para a Motown me comoveu a ponto de me fazer sentir profundamente a morte do cantor. Por que isso aconteceu?

Michael Jackson sempre foi um enigma, talvez mais difícil de desvendar que o Cidadão Kane de Orson Welles. Ao longo dos anos, Jackson desenvolveu uma imagem pública  variada, talvez fragmentada. Basta olhar as fotos da carreira do cantor que serão publicadas à farta pela imprensa nos próximos dias: temos o menino prodígio da Motown que encantou o mundo à frente dos Jackson 5; o garotão com cabelo black power que sacudiu o mundo cantando “Shake Your Body (Down to the Ground)” na segunda metade dos anos 70 ainda ladeado pelos irmãos, os Jacksons; o jovem adulto elegante, bonito, longilíneo, de roupa brilhante do clipe de “Rock with You”, uma obra-prima da canção popular; o superastro da época do álbum Thriller, já com a pele um pouco mais clara e o nariz um pouco mais fino; o zumbi do clipe de “Thriller”; o homem de pele totalmente alva, com furinho no queixo e bochechas inchadas do clipe de “Bad”; a figura feia, deformada, saída de um museu de cera do Vincent Price que, nos anos 90, dava as caras com cada vez mais frequência nos tribunais para lidar com acusações pesadas de pedofilia. Muita imagens, muitos Michael Jacksons.
 
À figura inconstante e contraditória, em permanente mudança física e sempre envolta em mistério de Michael Jackson corresponde a relação inconstante e contraditória, em permanente mudança e envolta em mistério que nós, espectadores, consumidores de discos, shows e revistas de fofocas desenvolvemos com o cantor.

Quem viveu os últimos quarenta anos dificilmente ficou indiferente à existência midiática de Michael. Suas canções, seja com os Jackson 5, com os Jacksons ou em carreira solo, fazem mesmo parte da trilha sonora da vida de milhões de pessoas em todo o mundo de 1969 a 2009. Comigo não foi diferente. Cresci vendo Jackson e seus irmãos na TV, inclusive na forma de desenho animado.
 
Um dos discos que mais rodava nas primeiras reuniões dançantes de que participei foi o Greatest Hits da Motown, lançado aqui no Brasil pela Top Tape (aquele em que ele segura um pombo na capa, lembram?). Esse LP tinha “One Day In Your Life”, “Music And Me”, “Happy”, “Rockin’ Robin”, “Got to Be There”, “Morning Glow” (essa sempre foi minha faixa favorita do disco) e outras canções dos quatro primeiros discos solo que ele gravou para a Motown - geralmente esquecidos pela imprensa (há pouco, a GloboNews cometeu uma gafe ao dizer que o Off the Wall, de 1979, foi o primeiro disco solo do Jackson).

Depois da fase da Motown, acompanhei os discos de Jackson e seus irmãos no selo Epic. Os dois primeiros álbuns para o selo foram produzidos por Gamble & Huff e, na minha opinião, são subestimados até hoje: Jacksons (1976) e Goin’ Places (1977). Esse último tem grooves arrasadores como “Music’s Taking Over” e “Jump For Joy”, mas eu gosto mais é das baladas “Got To Find Me a Girl” e “Man of War”.

A parceria dos Jacksons com Gamble & Huff gerou gravações magníficas, mas não rendeu a grana esperada (na segunda metade dos 70, o som da Philadelphia perdeu terreno para a música que havia inspirado diretamente, a disco music). Os Jacksons, então, decidiram gravar um álbum por conta própria. Assim surgiu Destiny, embrião de tudo o que os irmãos fizeram depois em termos musicais. É um disco muito bom e que fez muito sucesso em 1978, principalmente por conta do single “Shake Your Body (Down to the Ground)”, no qual Jackson aperfeiçoou ainda mais seu modo próprio de cantar, com divisões rítmicas precisas, quase em stacatto.
 
Depois de Destiny, veio o filme The Wiz ( Mágico Inesqueível, em português), baseado no clássico O Mágico de Oz ebque eu vi no cinema em 1978. Na trilha, Jackson trabalhou pela primeira vez com Quincy Jones. Os dois firmaram ali uma parceria cujos frutos todos conhecemos muito bem: os álbuns Off the Wall, Thriller e Bad, todos de repercussão mundial. Foi o período em que Jackson dominou o mundo pop, a década de 80, com a ajuda considerável dos videoclipes. Estabelecido como superastro, Jackson começou a patinar nos anos 90 e na década corrente, sobretudo por conta das acusações de pedofilia.

Testemunhamos todas essas fases de Michael Jackson e reagimos de formas diferentes a todas elas. Sobre o cantor, é comum ouvirmos coisas do tipo: “Gosto dos discos dos Jackson 5, não dos discos dos anos 80”. Há outros que preferem “Beat It” a “I Want You Back”. O fato é que, assim como um Frankenstein, nossa relação com Michael Jackson é feita de retalhos, de fragmentos, de pedaços que foram costurados no mesmo corpo. Podemos amar o Michael Jackson de 1973 e odiar o Michael Jackson de 1987.

Podemos sentir ternura pelo menino dos Jackson 5 e repulsa pelo homem cirurgicamente transformado. Podemos achar o cantor mirim irritante e desafinado e o performer adulto o melhor artista da história. Michael Jackson era capaz de fazer isso conosco. Por isso, hoje eu choro a morte do jovem cantor que embalou minha juventude e ignoro a morte do homem que preparou a própria destruição quando se deixou dominar  pela  ambição desmedida e pela permanente recusa em aceitar a própria realidade e a dos outros.

Veja os Clipes
Thriller
Don´t Stop ´Til You Get Enough
ABC (Jackson 5)
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Coleção - Thriller

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